A atual operação da concessão da Rodovia Presidente Dutra
representa uma verdadeira catástrofe para o desenvolvimento do país. A
expectativa criada em torno das obras da nova pista da Serra das Araras parece
ter servido como subterfúgio para o completo abandono da manutenção da estrada,
ao menos no trecho que corta o território fluminense. A diferença é gritante:
quem segue viagem em direção a São Paulo tem a nítida sensação de estar em
outra rodovia ao cruzar a divisa entre os estados.
No Rio de Janeiro, o cenário piora a cada dia. Em Piraí,
município que concentra a maior extensão da Dutra em solo fluminense, os
motoristas convivem com buracos que não se viam desde meados dos anos 1990,
período da primeira concessão. Na localidade de Varjão, o alerta é claro:
trafegue com atenção redobrada. O asfalto está tomado por crateras que colocam
em risco veículos, cargas e vidas.
Somam-se à péssima manutenção asfáltica os efeitos da quase
inexistente fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Se não é ausência
total, trata-se de uma fiscalização mínima, frágil e discreta, em grande parte
provocada pela redistribuição de efetivo para grupos especiais — postos
cobiçados internamente — em prejuízo da presença ostensiva nos trechos
rodoviários. Apuramos que há momentos em que apenas uma dupla de policiais, em
uma única viatura, é responsável por cobrir o trecho entre Guaratinguetá e a
Serra das Araras, acumulando ainda a estrada de acesso a São Lourenço.
Imagine a seguinte situação, nada hipotética: uma ligação à
base da PRF informa um acidente próximo a São Lourenço. Esse acidente só pode
ser confirmado presencialmente pela única guarnição em operação. O tempo de
deslocamento, somado à topografia montanhosa e às falhas de comunicação, abre
uma perigosa “janela de fiscalização”. Nesse intervalo, qualquer tipo de carga
ilícita poderia cruzar livremente todo o trecho exposto. Parece exagero? Não é.
É um fato que preocupa quem trabalha diariamente na estrada e acompanha de
perto o que está acontecendo — e o pior, sem poder fazer nada.
Chegamos à consequência prática desse descaso. Estamos no
verão, estação marcada por chuvas intensas. Água e asfalto, como se sabe, não
são bons aliados. Em uma rodovia sem manutenção adequada, pequenas fissuras se
transformam em grandes crateras em questão de dias. O tráfego pesado, agravado
pelas interdições constantes na Serra das Araras — necessárias para explosões e
remoções de terra — faz com que muitos motoristas acelerem além do prudente
para tentar compensar atrasos.
Talvez esse comportamento fosse diferente se houvesse
presença efetiva da PRF ao longo da rodovia. Mas não há. Não há sequer efetivo
suficiente para manter abertas as antigas bases, que permanecem
sistematicamente fechadas para quem passa pela estrada. O resultado é
previsível: acidentes frequentes e viagens que deveriam durar uma hora e meia
passam a consumir, no mínimo, quatro horas.
Na prática, ir e voltar ao Rio de Janeiro a partir do Sul
Fluminense consome um expediente inteiro de trabalho. Some-se a isso o tempo
dedicado ao compromisso que motivou a viagem e temos uma jornada dupla, imposta
por uma sucessão de ações, omissões e inconsequências.
E quem paga essa conta? Todos nós. Pagam os que ficam
parados na estrada. Pagam os que têm pneus rasgados pelos buracos. Pagam os que
sofrem com roubos de carga. Pagam os consumidores, que veem os preços subirem
por conta do aumento do custo do transporte. E pagamos todos ao passar pelas
praças de pedágio — porque, além de impostos, IPVA e DPVAT, também pagamos para
assistir e participar desse verdadeiro circo de horrores.
Para encerrar o espetáculo, o aviso final: evitem ir ao Rio
de Janeiro nesta manhã de segunda-feira. Há risco de deslizamento de encosta na
Serra das Araras e, há mais de cinco horas, aguarda-se a chegada de um
engenheiro para avaliar se será necessário interditar completamente a rodovia.
É piada e das de pior gosto.