Direto da Sapucaí - A primeira noite de desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí confirmou aquilo que o carnaval carioca tem de mais sofisticado: espetáculo, técnica, emoção e discurso. Com arquibancadas lotadas e camarotes fervilhando, as escolas que abriram a disputa mostraram que a briga pelo título será acirrada, combinando excelência plástica com enredos de forte apelo cultural e social.
Logo na abertura, a avenida foi tomada por um espetáculo visual de alto impacto. A comissão de frente apostou em tecnologia cênica, com jogos de luz, fumaça e coreografias sincronizadas, arrancando aplausos já nos primeiros minutos. O carro abre-alas trouxe esculturas monumentais, com acabamento minucioso e riqueza cromática que dialogava com o enredo proposto: um mergulho nas raízes brasileiras, da ancestralidade afro-indígena à formação urbana contemporânea.
A tônica da noite foi a capacidade de transformar temas complexos em narrativa acessível e emocionante. Uma das agremiações apostou em um enredo histórico, resgatando personagens esquecidos e propondo reflexão sobre identidade e pertencimento. Outra trouxe crítica social embalada por poesia, tratando de desigualdade e resistência cultural, sem perder a leveza do samba no pé.
Os sambas-enredo mostraram força melódica e refrões fáceis de cantar, elemento fundamental para “levantar” a Sapucaí. Em vários momentos, o público participou ativamente, transformando o desfile em um grande coro coletivo. A harmonia, ponto crucial na avaliação dos jurados, manteve-se coesa na maior parte das apresentações, com poucas oscilações perceptíveis.
As baterias foram um espetáculo à parte. Com bossas criativas e paradinhas estratégicas, criaram clímax que impulsionaram alas e destaques. Mestres de bateria demonstraram domínio técnico ao equilibrar tradição e inovação, explorando variações rítmicas sem comprometer a cadência do samba.
A evolução – deslocamento fluido das alas ao longo da pista – foi outro ponto alto da noite. As escolas mantiveram regularidade no andamento, evitando buracos e correria excessiva. O controle de tempo, cada vez mais rigoroso, mostrou planejamento detalhado e ensaios bem executados.
Nos quesitos fantasias e alegorias, o luxo predominou. Bordados, pedrarias e estruturas cenográficas de grande porte revelaram investimento robusto e apuro estético. O acabamento das fantasias chamou atenção pela uniformidade, reforçando a identidade visual de cada escola.
O protagonismo feminino também se destacou. Rainhas de bateria e porta-bandeiras foram ovacionadas por desempenho técnico e presença cênica. As duplas de mestre-sala e porta-bandeira apresentaram giros precisos, coreografias bem ensaiadas e respeito à tradição, sem abrir mão da teatralidade exigida pela avenida.
Se a primeira noite serve de termômetro, o público pode esperar uma das apurações mais emocionantes dos últimos anos. As escolas que abriram o Grupo Especial entregaram desfiles consistentes, com poucas falhas aparentes e alto nível artístico.
Mais do que competição, a noite inaugural reafirmou o carnaval da Sapucaí como manifestação cultural complexa e potente, capaz de unir espetáculo, crítica e identidade nacional em uma mesma avenida. A Marquês de Sapucaí, mais uma vez, transformou-se em palco de memória, resistência e celebração — e o Brasil assistiu, atento, ao desfile de sua própria história em forma de samba.